Carta para Rita

Rita querida, li o seu texto, li o da Helê e agora fiquei com vontade de contar também. Talvez porque, de alguma forma, reconforte. A mim, a alguém. Sei lá.

Não conto os dias. não consigo e me sufoca. Vivo, de verdade, um dia depois do outro. Não quero planejar nada, pensar no pós, fazer projetos. É um pé na frente do outro, um dia depois do outro, no longo rosário de contas dia-dia-dia-dia. Tec-tec-tec. As contas caindo. Aniversários, zoom com os amigos, zoom de aniversários, google meet, sala de fêice seminários, laives, grupo de pesquisa, grupo de amigos, grupo da família, grupo dos filhos, grupo das primas, grupo.

Novos e inesperados amigos, mensagens inbox, DM, conversas.
Cozinhar, lavar, comer, dormir, séries pra me afundar, séries pra me aconchegar, séries pra reconfortar.

Abraços e beijos trocados com quem quarentena junto comigo.
A fofura do filho que passa e manda beijinho. Eu passo e mando beijinho. E assim a gente segue.
O outro filho-longe, que tanto admiro, mais do que ele sabe. O outro filho-longe e o celular que não resolve, as convesas em vídeo que não resolvem. A alegria de saber dele. A vontade de abraçar.
A saudade de quem não está em quarentena comigo. A saudade imensa.

Outro dia. outra conta. outro passo.
Resistiré para seguir viviendo.
Ou, pelo menos, farei o meu melhor.

 

 

Vozes do além

Meti os dois pés, ou melhor, os dois ouvidos no mundo dos audiolivros durante a quarentena. Foi uma forma que encontrei de driblar a ansiedade que se anunciou no horizonte ao perceber a quantidade de horas que precisaria dedicar às tarefas domésticas quando gostaria de estar lendo, traduzindo ou escrevendo meus próprios textos. O audiolivro me permite tirar o pó dos móveis e descascar os legumes sem contar os minutos. Não que eu não goste de cozinhar ou arrumar a casa, até gosto, o que pega é a rotina que se impôs a contragosto diante da necessidade de reajustar a dinâmica da nossa vida doméstica. Meu marido prefere cozinhar ouvindo música, eu vou de capítulos narrados.

Recentemente vi algumas manhãs voarem enquanto as divagações e muitos equívocos de Emma Woodhouse passeavam pela minha cabeça em uma narração executada com muito talento por Deborah Bapt (narrado em português em tradução cuja autoria desconheço). E eis algo que ficou muito claro na “leitura” seguinte. Percebi que para apreciar um audiolivro não basta que gostemos do autor ou autora, ou pelo menos que aquela obra em particular nos seduza seja lá por qual razão. É necessário gostar também da narração. Depois de Emma, decidi ouvir Um teto todo seu, em tradução cuja autoria tampouco consegui identificar. E mesmo o texto da Virginia Woolf sendo tão interessante quanto eu esperava, faltou pouco para eu arrancar os fones já no primeiro capítulo. Incomodou-me a narração afetada, por vezes montada numa leitura meio gritada e, para completar, em meio a algumas escolhas tradutórias, digamos, desconfortáveis.

No entanto, Woolf tinha tanto a dizer quase um século atrás, o texto foi vencendo. E à medida que os obstáculos enfrentados por ficcionistas dos séculos XVIII e XIX se sucediam em meus ouvidos, que eu descobria que Jane Austen não dispunha sequer de um cômodo onde pudesse se recolher para criar a Emma que me divertira dias antes, passei a ouvir a voz de Woolf por trás da narradora – numa conexão que, sabemos todas, só é possível porque aqueles lá de outrora estavam certos em certa medida, somos mesmo bruxas. Há quem argumente que a narração engrenou ou que me acostumei ao tom, vai saber. O que sei é que tem se sobressaído a voz lúcida da incrível mulher que escreveu The Waves (ou talvez eu deva dizer pintou?) e que, em Um teto todo seu, demonstra no olhar para o mundo que a cercava e na leitura da relação das mulheres com a produção literária a mesma maestria que exibia na construção de sua própria obra ficcional.

Duas coisas me ocorreram ao final do capítulo IV: como uma mulher ouve ou lê um texto assim e não se descobre, se redescobre ou se celebra feminista? A segunda coisa foi, pasmem: “já acabei a faxina? Que pena!”

woolf

Woolf, falando em minha cabeça e julgando minha faxina.

Aqui, assim

Consigo ver 3/4 do pôr do sol (saudades, hífen) ali da minha área de serviço. Meu pai, de quem herdei a atração pelo ocaso, tirava fotos dos pores do sol sempre que podia, com a máquina que estivesse pela família no momento. O fim fascinava meu velho. O fim das cousas, das outras pessoas e seu próprio fim.

(Na imagem: Boudin, o mestre de Monet, craque de imagem, craque de céu e de mar, craque, craque, inventor, de muitas formas, do Impressionismo e do próprio Monet. Ele entendia de recomeços e de morte, de ocasos, de nascimentos, de criação e de destruição, de como ser parte de um e do outro e de como desistir de tudo quando o momento chegava.)

Sabe bem, sabe a cerveja e vontades

mesa de bar

Pode ser assim: o convite desajeitado, se você vier aqui, a gente toma uma cerveja. Olha lá que eu estou chegando dia 12. Uma cerveja e mais uma e mais. A mesa cheia, gente, gente, gente que chega, tantos amigos, ela nunca vem por aqui. Gente, uma mesa, outra, mais uma, junta aqui. O sotaque bonitinho. O decote. A gaitada. E tanta gente. Gente que sai. Vai. E outra. E mais. Tenho que ir também, mas uma conversa engata em conversa, e tem aquela risada e os silêncios. A melhor coisa é o silêncio, os olhos se encontram por cima dos copos, se desviam, um gole mais longo na cerveja, um comentário aleatório sobre a decoração do bar, sobre o tráfego, sobre o tempo. Três mesas que se tornam duas que se torna uma, melhor sentar aqui do ladinho, mais uma cerveja? mais uma cerveja, uma risada, o beijo. Que nem é tão bom, de cara. Dentes. Um rápido demais, outro devagar e faminto, falta pegar o jeito. Ritmo. Outro gole, um sorriso desconfiado, melhor beijar mais. Só pra saber se. Beijamos. Melhor beijar mais, mais beijos os fazem melhores – eu penso, eu rio, eu beijo, você estranha, eu acaricio sua nuca, mordo seu pescoço, você meio geme, meio soluça, a gente aprende ligeiro.

Pode ser assim, receber um convite desajeitado, arrumar na mala um cantinho pro quem sabe, marcar em um bar que é como estar em casa, uma cerveja e gente e ele e o desassossego e que nada, amigo, mesa que cresce, uma, duas, três, gente que sai, que vai, ele que fica, ainda aqui, aqui, três, duas, uma, nós, ele aqui, mais perto, a mão na coxa, a dele, a minha, faço silêncio pra ouvir o desejo diabinho: beija, beija, ele escuta, acho, beijamos, e mais, e beijos, e o táxi, e beijos, um dia, outro, um bar, outro, um torresmo, um bacon, uma cerveja, outra, já ficou fácil beijar e tudo, o tempo passa rápido entre bares e beijos. Mala pronta.

Quando é que a gente vai se ver de novo, o certo é será que a gente vai se ver de novo, eita, quem sabe, tomara que sim, sou contra a geografia, tá certa a indignação, nem sei se você entendeu a piada. A gente se despede sem beijo, o abraço demorado, você afaga meu queixo, aperta meu braço, eu prometo escrever, telefonar, dar notícia, é mentira, tá na hora, eu não olho pra trás pra poder seguir acreditando que você ficou olhando enquanto eu não olhava pra trás. 

Cada dia beijos a mais, tempo a menos, mala feita, eu te levo, quando é que a gente vai se ver de novo, ela faz piada, eu rio, eu não entendo o alvoroço nas minhas mãos que procuram pele todo tempo, queixo, braço, não dá pra ela atracar em mim? Abraço. Ela faz as promessas, eu só escuto o silêncio do futuro sem beijo, sem peitos, sem risada, sem silêncio, aquele. Ela vai, manobra lenta de desencaixe, arrasta a mala, não olha pra trás, eu olho pra ela, eu olho pra dentro, até ela desaparecer no portão e se estabelecer numa pequena mesa de plástico, copo sempre cheio, no canto do meu peito.

Daqui, de longe, de quando, de nunca, aquele nunca que é mais, eu mando, enfim, um beijo. 

Aqui, raiz profunda, esquina entre o tempo que lembro e o tempo que eu quis, recebo um beijo, nem sei se saltou da tela ou veio dali, da moça que vive na mesa de plástico amarela, bem dentro, tão fundo. Até me assusto, depois de tanto e do nunca que é mais, esse beijo que chega. Com asas, decote e sabe a saudade.

Um pouco de HPER*

*HPER – História do Pensamento Econômico de Renata. 🙂

Foi assim: eu entrei na faculdade cor-de-rosa, com 17 anos e muitas dúvidas e receios.
Fazer economia era um desafio. A mim mesma, digo. Ninguém jamais imaginou que seria isso que eu iria estudar. Belas Artes? Desenho Industrial? Letras? Comunicação? Algo na área das sociais – História, Sociologia?

Pois então. Foi meio que um ato de coragem. Era algo que eu achava que tinha que saber. Pra mim mesma. Pra completar uma falta.

Eu tinha pais envolvidos com política; por circunstâncias, acabei mergulhando nisso desde pequena. Acabava esbarrando na discussão do que era “esquerda” e “direita”. E, confusamente, sabia que tinha a ver com isso.

Afinal, já tinha 17 anos e já tinha lido uma pá de coisas heteróclitas.

A vida na faculdade cor-de-rosa era um renascer. Mais uma vez, como tantas ao longo da vida, teria a oportunidade de zerar tudo e começar de novo.
E deu sorte de eu parar numa turma animada e curiosa, que tava meio que nem eu ali (obrigada a todos os envolvidos  ).

Aí me deparei com uma organização das ideias e dos autores que pra mim era difícil de absorver: na minha faculdade, falava-se nos “neoclássicos”, nos “marginalistas”. Esses eram “os maus”. Marx e cia., “os bons”. Keynes e Kalecki, também do lado dos bons (embora sobre Keynes houvesse longas, intermináveis discussões). Schumpeter, por algum motivo estranho ( ), tb do lado dos “bons”. Ortodoxia: mau. Heterodoxia: bom.

Eu? Não entendia direito. Não entendia como fazer a passagem dos manuais de microeconomia pras perguntas que as pessoas se faziam, não entendia em quê o manual de macro do Dornbusch e Fischer era ou não era uma representação fiel de Keynes, o que era “keynesianismo bastardo” (o  horror, o horror) e, disso tudo, o que era pra achar bom, pra achar ruim… enfim, tanta coisa que eu não entendia.

Fui tratar de entender.

E (com o help dos friends que me ajudam a get by) cheguei em Piero Sraffa, o economista italiano amigo de Gramsci, por conta dessa busca: na tentativa de entender os “vilões” da história que me contavam – ou seja, os chamados neoclássicos. O texto do Sraffa sobre as curvas de custo dos manuais de micro é que me encantou primeiro. A partir de Sraffa cheguei a Garegnani, seu discípulo: que alegria. Finalmente um povo que criticava os neoclássicos explicando. Eles apresentavam a teoria primeiro, para então discordar.

Agora sim.

Não poderia deixar de citar Krishna Bharadwaj, mais uma discípula de Sraffa, e seu livrinho tão essencial: que maravilhoso. Agora, sim, me sentia no caminho. Primeiro, entender, discutir, criticar. Saber por quê, e por que não. A partir daí, pensar no contraponto. Finalmente o estudo da teoria econômica começava a se encaixar na minha forma de pensar e de olhar o mundo.

A graduação foi um começo, mas não bastou: fui lá fazer mestrado e ralei pra achar o tema de dissertação certo. O orientador certo, que discutia meu texto sem nenhuma benevolência, mas em seus próprios termos, sem querer colocar suas próprias palavras na minha boca. Tão raro isso. Agradeço.

Como dizia, ralei foi muito, mas acabei chegando lá: era sobre a teoria neoclássica que eu queria escrever. No fundo, era um final de história esta dissertação: minha explicação pessoal sobre a teoria neoclássica e por que não ela. Um texto necessário para mim, para que eu me entendesse no meio de tudo. É claro que eu não tava inventando roda nenhuma: tava só arrumando do meu jeito os textos lidos. Arrow, Debreu, Hahn, Walras e companhia e, nesta arrumação, mostrando o meu ponto de vista sobre aquela literatura. Agora eu podia dizer: li e tenho lá meus motivos pra ser outra coisa. Foi isso que tentei explicar ali. E defendi a dissertação grávida do Felipe, o que motivou o amigo David a comentar rindo: “Renatinha, quando te falam para parir uma tese, não precisa ser assim literal”.

Foi este o meu caminho: fui lá ler “os caras do outro lado”, pra explicar (pra entender) por que eu me situava em outro campo. Acho que deu. A banca também achou.
Ufa.

***

Aí que eu considero tão triste a quantidade de “não li e não gostei” que se vê hoje em meios acadêmicos.

Lê lá, primeiro. Depois diz por que não gostou.

estante_corredor

Traje e tempo

“Desposar as palavras, pesá-las,
explorar-lhes o sentido
é uma forma de fazer amor
sobretudo quando o que se escreve
é inspirado por alguém ou prometido a alguém”

Daí que eu fiquei sabendo que você dança forró. É um perigo cada coisa miúda que te dá materialidade. Que me conta que você respira, pensa, lamenta, sente, come, dorme. Sua. No forró. E, no encontro que nunca será, seria um salão e uma sanfona. Você, de azul. Aquele clarinho do álbum de retratos. Um traje qualquer, o traje certo, blusa de manga comprida meio dobrada, o pulso à mostra, um convite. Eu, vestida de esperas. E depois dos muitos prazeres trocados, você com educação, eu com promessas; depois dos copos pedidos e brindados e renovados; depois que a conversa foi e veio e voltou e eu nada percebi a não ser o tamanho dos seus dedos, o sobe e desce do teu pomo de adão, as rugas todas tão vividas espalhadas no rosto que eu sei de cor sem nunca ter estado perto de saber o calor da tua pele; depois que eu consegui fazer a voz tua, o corpo teu, o jeito teu, tudo que foi tão meu em desejo distante, se encaixar no teu jeito,  teu corpo, tua voz no momento agora, um pouco mais rouco, um pouco mais engraçado, um pouco mais alto com pernas e pés que nunca suspeitei; depois que o primeiro suor escorreu do meu pescoço ao colo e o teu olho acompanhou até se perder no decotado amarelo do meu vestido; depois que as bocas pegaram gosto em álcool e cigarro e apetite; depois que as palavras falaram amenidades de tempo e futebol enquanto os olhos disseram o que sempre seria cedo demais pra ser enunciado; depois de tanto e muito e tão depois do que eu já quis embora quase rápido demais pois era sua primeira vez comigo; em um instante que nunca será, você se levantou e me estendeu a mão e eu ri e fui e quase disse que era do movimento simples, mas deixei você me adivinhar. Trajados de desejo, o salão.

Seria então sua mão bem alta nas minhas costas, eu tão reta, uma mão no seu ombro, o outro braço solto, as outras nossas mãos se encontrando lá no livre do balanço. Nem segurei o sorriso de você dançar com o braço maneiro, os dedos entrelaçados e as costas das mãos de vez em vez batendo nas pernas, sua calça de brim, macia, pernas que o vai e vem das minhas segue, meu vestido marcado, cada vez mais amassado no chamego, dois e dois, um e um, rodopio manso, me leva, seja como for seu mundo, me leva, nem sua idade nem meu peso parecem lembrar de cansar, coxa que se encaixa, olho que se cruza e se desvia e se fecha, sua mão, a outra, já mais maneira, vai descendo, escorrendo, acompanhando o suor que sai do pescoço e desce frio na pele quente como a tua mão que o acompanha e vai até chegar ali na curva que é fim e começo e num movimento delicado me puxa e eu vou e é o lugar certo, o jeito certo, o tecido molhado no busto revelando os anseios  do corpo que vai ficando molinho, encosto a lateral do rosto no teu peito, depois respiro fundo e viro pro outro, o nariz quase enganchando entre um botão e outro, minha cabeça sabendo o caminho de caber na curva do teu pescoço, fico um pouco tonta com o cheiro de sabonete e suor e blusa lavada com amaciante, uma vontade de cochilar naquele balanço, você me sustenta me apertando mais, senti sua respiração no meu cabelo e, quase suave, o movimento, o roçar do queixo e a pressão de lábios, a minha mão também já desceu do ombro, vagueia com um ritmo que eu já nem controlo, as nossas mãos tão presas se soltarão pra encontrar outros trechos de pele a percorrer, a sua passeia no meu braço sem mangas, você me segura pelo meio do corpo, uma mão de cada lado, metade delas na cintura e o resto já no quadril, como se me ancorasse e as minhas encontram aquele descoberto da nuca entre a gola da camisa e o começo dos cabelos macios e até um lóbulo de orelha elas roçam, te faço um cafuné, já nem seguimos a música, ela é que nos acompanha e eu suspiro e você cheira meu cangote e minha perna some entre as suas e tudo em nós pede mais fuga e você sussurra alguma coisa que eu não ouvirei bem e levantarei a cabeça e meu olho ficou preso no seu e já não lembro o que será tua boca, teu cheiro, tuas mãos, tua pele, teu gosto e se misturei todos os tempos verbais nem fui eu, foi o desejo inventando memória.

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Nárnia

Minha gata resolveu explorar o ambiente do escritório. Veio reclamar minha presença no sofá, avisar que o colo está atrasado. Eu ia começar a explicar que hoje não ia rolar, mas vi que a beldade se deparou com os muitos atrativos da bancada e logo se esqueceu de mim. Começou pela caixa de tintas e pincéis encostada ao lado do gaveteiro, afinal é uma caixa. Escalou, examinou, cheirou, tateou com as patinhas de almofada. Achou sem graça ou sentiu a solidão dos pincéis nessa quarentena de cavalete guardado, não sei. O fato é que logo saltou para a bancada e tratou de fazer a vistoria geral. Atravessou magnânima por trás do monitor me ignorando completamente, digitou aqmernqçkjfapfoiau no teclado do laptop, conferiu a disposição da fiação, aprovou. Seguiu o L da bancada, demorou-se um pouco no grande fone de ouvido, certamente reconhecendo o cheiro do meu filho que passara a manhã na aula online. Chutou um pendrive me forçando a interromper esse texto, catar o coitado do chão e resmungar um “ei!” inócuo e muito pouco convincente. Resolveu experimentar o teclado outra vez e se sentou…

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Quando o documento já tinha vinte páginas em branco, fui obrigada a reposicioná-la no chão, com um ultimato falso porque a verdade é que ela era tão bem-vinda. Para minha sorte ela saltou de volta para a bancada, apoiou-se nas patas traseiras e levou as almofadinhas das dianteiras para os livros da estante aérea. Viu Fante, Swift e Verne, achou muita viagem, ignorou todo o resto e voltou à impressora para de lá conferir as prateleiras de vidro. Miou feliz diante da Lygia, torceu o focinho para a barata da Clarice e disse que sabia digitar o sobrenome da Leticia Wierzchowski, podia me mostrar agorinha mesmo. Dispensei. Ela então, magoada e aborrecida, atravessou a sala rumo à estante do outro lado. Cheirou as cartas do Otto ao Sabino e toda aquela fofocada das biografias e me julgou. Tenho certeza. Depois arrastou o rabo sinuoso pela prateleira de poesia e tentou brincar com uns versos que despencavam de um volume laranja – era o Leminski, fazendo aqueles malabarismos. Mas logo largou as letras voadoras pra lá quando na prateleira ao lado, meio ofuscada pelo olho de Sauron, ela viu Nárnia, enfiou o focinho, foi indo e me deixou aqui, sozinha, com esse teclado sem graça e esse colo vazio.

Bella no escritório

Bella, escrevendo esse post.

 

 

Pecado Original

“Não aguento mais ver tanta mulher feia. por piedade, parem de usar esse maldito app”.

Isso disse o conhecido gente boa no feicebuque, fazendo piada. Piada, vejam só. “Não aguento mais ver tanta mulher feia”, ele declarou. E era uma brincadeira. Sim, era sobre o aplicativo que mostra como seriam as pessoas se fossem do outro gênero.  Mas como estou imersa neste tema desde ontem, a frase me pegou de jeito.

Mulher feia: não pode, não dá. “Não aguento mais”. O que está por trás disso é que entre os atributos básicos, necessários, da mulher está o de ser bonita. Mulher bonita é mulher. As outras… bem, se ficarem no cantinho. Se não incomodarem muito. Assim como um bichinho de estimação, algo em que não se presta muita atenção. Porque afinal, não é mesmo. “Mulher feia”.

“Não existe mulher feia, existe pouca bebida”,  diz outra boutade nacional. Com álcool suficiente, se encara qualquer uma. Até mesmo – oh, escândalo – as feias. “… que me perdoem, beleza é fundamental”, vaticinou o poeta, expressando algo tão naturalizado que ninguém nem pisca. Acham divertido, simpático. Uma graça. “Mulher” e “feia” não pode existir. Ou, por outra: só pedindo desculpas. Só ficando no cantinho. Sem atrapalhar, sem fazer muito barulho. Algumas, se forem muito inteligentes ou muito hábeis, ganham uma salvaguarda de “equivalentes a homens eunucos”. E assim são tratadas por eles.

É claro que o problema não é o conhecido, o poeta, todo mundo que repete essas coisas sem nem sentir. Esta, como tantas outras formas de olhar o mundo, é estrutural. Aquela palavra que a gente diz tanto e na qual pensa tão pouco. Expressão de uma sociedade estruturalmente machista, em que a função precípua da mulher é servir aos homens. Deleitá-los com seus atributos estéticos.

Escrevo pensando que tanta gente há de achar este tema pequeno demais para merecer atenção. Gente-homem, obviamente. Talvez mulheres consideradas socialmente bonitas, que podem ser cruéis às vezes. Isso porque não custa lembrar que a ideia de beleza é um constructo social e variável. O que é considerado bonito aqui não necessariamente será bonito lá. Embora a globalização e os meios de comunicação de massa tenham embaralhado bastante esses fios aí. Mas permanece. Não é a mesma coisa. E sempre é bom lembrar. Não é algo inerente à pessoa, é algo que lhe é atribuído segundo um código estético específico. “Bonita”. “Feia”.  Quem decretou? Quem definiu?

Só que este tema, lateral, paralelo, marginal, periférico, nada tem de irrelevante, apesar do que possa parecer à primeira vista. Já que é atributo essencial para a plena condição de mulher. E nem estou dizendo que a vida das consideradas muito bonitas seja fácil: isso é outra conversa, outra discussão. Mas estas alcançam o diploma de mulher 100% legítima. Não é como as outras, as feias: as que permanentemente precisam justificar sua existência, de preferência em tom baixo e com voz pausada. Senão, além de feia, seria deselegante. Ninguém quer isso.

Agatha Christie, de onde tiro boa parte das minhas referências, tem algumas duplas de mãe e filha entre suas personagens em que a mãe é linda e exuberante, enquanto a filha é feia, sem graça. “Plain”, uma palavra cruel em inglês. Morna. Insípida. Sem atrativos. Após ler sua autobiografia, chego a suspeitar que, na fantasia da menina Agatha, era esta a relação entre ela e sua linda, fantasiosa e brilhante mãe. Porque tem isso também: beleza tem esse quê de relativo. Você é “mais bonita que”, “menos bonita que”. E passa a carregar este peso, esta culpa de não ter atingido o padrão de qualidade materno. Embora possa ter bons dentes e boas ancas, como uma égua parideira (o que não deixa de ser um atributo relevante, não é mesmo).

Os homens? Ah, este peso não carregam. Pelo menos os homens hétero. Tronchos, mal-ajambrados, desajeitados, nem por isso têm algum pejo de julgar e reprovar a suposta falta de beleza de certas mulheres. Ou de incensar certas outras. Escrevo isso e me lembro de “Todas as mulheres do mundo”, o filme, a série. Leila. Linda Leila. Ela, pessoa incrível, interessante, inteligente, libertária. Mas não dá para não notar que foi facilmente admitida no mundo dos homens pelo além de. Ela era tudo isso, além de linda. E se não fosse linda? Como então seria sua passagem? Será que conseguiria tirar passaporte para o mundo dos homens? Visto permanente, será?

Da série baseada no filme, com a diva Sophie Charlotte no papel que um dia foi de Leila, não consegui assistir mais do que metade do primeiro episódio. Machista. Violentamente machista. Cariocamente, malemolentemente machista. Não consegui. Mas muitos dos meus amigos homens amaram. “E Deus Criou a Mulher”, disse Roger Vadim.

A mulher, no caso, era Brigitte Bardot. Porque, claro, a mulher que Deus criou era linda. Atributo inerente. As outras? Alguém pegou o resto de massa que sobrou e montou de qualquer jeito. Não dá pra levar a sério. Não dá pra considerar.

 

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Les Demoiselles d’Avignon, Picasso (1907)

Nascimento e morte de um post

Ontem fui dormir embalada por uma narrativa impregnada de beleza. Se a história que achei tocante e bem escrita compôs meus sonhos, não me lembro, mas sei que acordei com vontade de falar, ou melhor, de repetir algo que sempre me comove. De como a beleza habita a tristeza. Falando assim, “habita”, a coisa parece natural: a beleza está lá, é só olhar. Mas não é bem isso, então tento novamente: de como é possível compor beleza a partir da tristeza. Pois a tal narrativa que me fez pensar em palavras como ternura, lirismo e encanto fala de diáspora e deslocamento, vãos da memória, violação e morte. Até entrar o olhar de quem conta e recobrir o mundo com camadas de luz.

Sempre que me deparo com o belo que nasce a partir do que, sem a arte, seria puramente adverso, lembro-me do papo com a amiga na época da faculdade. Nossa banda favorita tinha letras tão tristes, melodias tão pungentes que exclamávamos sem muito pudor: é bonito porque é triste. A elaboração que nasce daí sempre caminha rumo a certa catarse ou reconhecimento de que a vida é áspera, o mundo é insano, o sentido nos escapa – mas a arte sempre acende a luz.

Sem saber muito bem o que fazer com isso, deparei-me horas depois do café da manhã com um texto que parecia um holofote sobre os primeiros pensamentos do meu dia. Meu post morreu, ficou a alegria de suspeitar que somos legião.

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Photo by Flora Westbrook on Pexels.com

Aqui, assim

Tem roubadas que, tudo bem, são da vida, mas nalgumas, meu Deus do céu, a gente se mete porque quer mesmo. E depois chora, come doce, implora por intervenção divina, faz bonequinhos vodus imaginários, chora no banho, come outro doce. Num canto, com a mão sobre os lábios, o Universo se acaba de rir porque, sim, foi bem feito.

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Nem sei se volto

(na imagem, as imensas Ciesinski e Norman, regidas por Ozawa)