A livraria que nunca fecha

É bem provável que eu tenha ouvido falar na Charing Cross Road pela primeira vez no cursinho de inglês. Pode também ter sido no guia de viagem comprado para minha primeira temporada em Londres, no final dos anos 90, não há mais como saber. Sempre foi “a rua das livrarias”; ou “a rua da livraria“, por causa do filme 84 Charing Cross Road, dos anos 80. 

Nos meios que eu frequentava, cheios de alunos e colegas de estudos da língua inglesa, vira e mexe alguém falava do Anthony Hopkins, do vai e vem de cartas. O cenário da história virou uma espécie de endereço mítico, a livraria do filme do Hopkins. Mas Londres tem distrações demais, e nas vezes em que me perdi na Charing Cross nem me lembrei do número 84. Sempre que alguém falava no assunto, eu pensava “ah, nunca procurei o número 84; quem sabe na próxima”. Afinal, eu ia gostar de visitar a livraria do filme… que nunca vi. 

Acho graça no vínculo que vejo entre o título em português e a minha relação com ele: Nunca te vi, sempre te amei. Pois foi assim: eu amei a história desde que me contaram pela primeira vez (ou li sobre, não sei mais) porque gostei do conjunto do que me disseram: uma amizade por correspondência entre alguém de Nova Iorque e um livreiro de Londres, uma livraria de livros antigos. E deduzi por vias tortas que a livraria era famosa por causa do filme que tinham feito sobre ela, e não o contrário. Mas a verdade é que o filme foi feito porque ela de fato foi palco de uma boa história. (Naturalmente, o lugar ficou mais famoso depois do sucesso do filme.)

Eu, distraída, nunca soube que 84 Charing Cross Road era a adaptação do livro de uma escritora estadunidense que, no pós-guerra, começou a se corresponder com um livreiro inglês para conseguir edições antigas que não encontrava em Nova Iorque. Nunca esbarrei com o filme em locadoras (ou ele nunca me achou) e nunca o encontro nas plataformas atuais. Pois essa semana Ulisses e eu o achamos nos corredores da internet e finalmente vi o que já amava. E agora estou aqui dizendo a todo mundo que já viu (porque todo mundo já viu): veja de novo.

Talvez vocês já tenham se esquecido, afinal. Faz tanto tempo. Talvez nem se lembrem mais que Judi Dench interpreta a esposa do personagem do Hopkins. Ou que a história se desdobra ao longo de duas décadas. Que, durante todo esse tempo, Helene e Frank trocaram cartas e livros, mas não só isso: trocaram presentes valiosíssimos, como os enlatados de carne e outros alimentos que ela encomendava de uma firma dinamarquesa e pedia que encaminhassem ao novo amigo na Londres da comida racionada (alimentos que Frank distribuía entre os funcionários da livraria). Ou talvez vocês também tenham se esquecido da toalha bordada que eles enviaram para ela. Ou que ela quase foi lá algumas vezes. Que ele contava tudo a ela. Que a livraria era linda. Que ele guardava as cartas em uma gaveta. 

Eu me dei esse presente ontem, ver a história da amizade de Helene e Frank. Não gosto mais do título em português. Foi um amor, sim, mas não como o título talvez sugira. Adoro o fato de que vi e continuei amando a história, tudo que eu sabia sobre ela. Infelizmente, meu encontro adiado nunca acontecerá: no processo de enfeiamento do mundo, o número 84 da Charing Cross foi engolido por uma lanchonete de sanduíches envenenados e batatas de plástico. Mas vou tentar ignorar essa informação. A livraria existe para sempre nos olhos de quem vê o filme, como agora sei.   

Tudo bem no ano que vem? Tudo bem no ano que vem

Repetem bastante que a esperança é a última que morre. Não é o que a minha experiência particular me tem demonstrado. Eu mesma recentemente enterrei, bem enterrada, com velório e serviço fúnebre, uma esperança daquelas, jovem, bem nutrida, vistosa. Ainda estou no processo do luto, mas sei, sobrevivente que sou – como somos – que em breve a esperança morta será uma memória doce, bem guardada na gaveta de baixo da escrivaninha que fica nos fundos, um pouquinho pra lá do ventríloquo esquerdo do coração. Suspeito que permanecerá matéria sensível, talvez de forma transitória, como quando esbarramos forte em um móvel e a área da coxa fica dolorida por um tempo e andamos com mais cuidado pra não magoar, ou, quem sabe, uma sensibilidade mais duradoura, como aquelas pessoas que fraturaram o joelho, tiveram completa recuperação, mas ainda sentem, antes de todo mundo, que vai chover.

Morreu antes, a esperança. Morreu cedo, antes do afeto, do desejo, da alegria, da ternura, da curiosidade, do tesão. Morreu antes do amor, que ainda sinto.

Morreu sem alarde, como vela que se consome, morreu de sua própria luz e beleza, foi se apagando e eu só pude acompanhar, com certa melancolia e aguda dor, o seu aniquilamento. Morreu, lamentei, velei, enterrei e agora vou arrumar as coisas que deixou espalhadas, arquivar papéis, fechar contas, separar roupas e sapatos para doação e tantas outras tarefas impensáveis e necessárias.

E porque morreu menina esperança, eu ia assistir um filme de super herói. Sei bem que os amigos mais sabidos, ao saber disto, balançam a cabeça, consternados, e eu não lhes tiro a razão. Mas, sim, eu ia ver um careca sabido ou um homem de lata voador e, com isso, tentar me sentir menos oca ali, onde habitava a alegre e um tanto estabanada esperança. Queria que os ruídos e explosões e tiradinhas superficialmente engraçadas disfarçassem o silêncio que a morte da esperança em um amor tão bonito e forte, deixou em mim. Mas peguei um outro caminho e deixei que Alan Alda me acompanhasse em meu luto e ocupasse meus vazios com seus gestos largos, sua falta de jeito e a deliciosa química com Ellen Burstyn.

Same Time, Next Year, 1978 - Cinema Clássico

O amor escapa ao dito, mas as histórias de amor podem e vem sendo contadas de muitas formas e em muitas linguagens. Tudo bem no ano que vem é uma das histórias de amor que mais gosto, contada de um jeito que admiro. Há muitos motivos para este ser um dos filmes da minha vida, um dos que me instruiu e que me conforta. Uma das principais razões é que me comove e inspira a cumplicidade entre George e Doris.

Resumidamente: uns 25 anos de um relacionamento extraconjugal começado meio intempestivamente e mantido de uma maneira peculiar.

É um filme maravilhoso que, tal como uma banda de moebius (ou fita de mobius, quem preferir), não diferencia fora e dentro do relacionamento e ao mesmo tempo em que acompanhamos a intimidade de George e Doris, seu desejo, seu cuidado e sua entrega, acompanhamos as mudanças que vão acontecendo no mundo: as guerras, os avanços tecnológicos, as alterações nos costumes, moda, linguagem. Vemos como eles vivem cada transformação e como quem eles são molda essas transformações que cada caracterização que apresentam, simboliza. É uma delícia Doris na faculdade, rebelde, dona de empresa e por aí vai. E como não amar um George conselheiro meio hippie?

O roteiro tão original, a música maravilhosa, o figurino, a fotografia, a presença de quase nenhum personagem além dos protagonistas e nenhuma locação além do seu local de encontro, cada um desses fatores e a combinação deles dá muita potência ao desenvolvimento do filme, assim como a forma delicada e sensível com que é conduzida a direção. Destaque pros diálogos que são divertidos, inteligentes, ágeis, doces e apresentados por Alda e Ellen como se fossem dançarinos em sintonia.

Alguém pode ver e achar tudo muito brega, clichê e caricato, especialmente a caracterização exagerada de cada personagem nas transições a cada reencontro – e nem sei se o alguém estará tão errado. Pra mim, funciona. Funcionou, funciona, revejo ano após anos e, agora, natimorta esperança, é nele que me deixo embalar.

Talvez o principal elogio que se deve a este filme é que é tão corajoso, com o povo se pegando no primeiro esbarrão (nem mesmo é um encontro no sentido convencional norte-americano, o tal date) e deixando claro (embora sem cenas explícitas) que é o tesão que os impede de desistir da relação – não só no começo – mesmo depois que todo companheirismo e cuidado mútuo estão estabelecidos, ainda é o desejo que dá a liga.

Então, sim, o luto. Lamento perder a esperança. Sentirei falta dela. O vazio que fica onde ela estava canalizará vento em ruídos estranhos no peito. Mas já não sofro só, choro no colo de Tudo bem no ano que vem, sendo afagada, aninhada, confortada. Um filme que me acompanha desde sempre. Que me faz rir, me comove, me enternece. Me leva pra mim. Me lembra quem sou. E que, é verdade, morre esperança, vaga o.amor por pradarias escuras mas, ainda assim, ficarei bem, amanhã, daqui uma semana, um mês, quiçá no ano que vem.

(assistam esta sequência de abertura e me contem se não é a coisa mais doce, bonita e envolvente)

O que eu queria de ti, Lisboa

Nas tascas da viela mais escondida
Cheira a iscas com elas e a vinho
Um craveiro numa água furtada
Cheira bem, cheira a Lisboa

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O que eu mais queria de ti, Lisboa, não era o jardim feito quintal, para onde eu arrastava livros, sonhos e vontades e me deixava levar pelo riso das crianças aprendendo a correr de bicicleta, pelo murmúrio da conversa dos velhos em bancos ao sol, pela alegria ruidosa dos adolescentes em bandos. Não. Não era, Lisboa, tuas ladeiras enigmáticas, tuas calçadas trançadas ou tuas cores que embevecem, não era isso, Lisboa, que eu queria, agora, de ti, nem o melodioso das falas, o doloroso dos fados, o sossego das praças. Não queria a alheira cheirando, os vinhos baratos, o pão de casca dura e miolo perfeito. Nem o apartamento de paredes grossas e chave engraçada. 

O que eu mais queria de ti, Lisboa, não era você em tons de outono, o novo se fazendo casa, o acostumar-me com os laranjas e vermelhos no chão liso de folhas. Não queria, Lisboa, as bebidas quentes, o lento da sopa, as árvores nuas, o vento lambendo pele e arrepiando pelo. Nem queria, Lisboa, o acordar da alegria, as ruas se enchendo de gente e flores, as esplanadas em riso, os afetos, mãos dadas, vozes empolgando esquinas. O que eu mais queria de ti, Lisboa, não era teu verão de calor e multidão e praia e caramujinhos, não era o desfilar de turistas tostados e imperiais geladas e sangrias e espetáculos e músicos nas praças e gelados e monumentos lotados e miradouros sendo ocupados e parques sendo ocupados e bares sendo ocupados e a cidade sendo gozada em exuberância e festa. Nem mesmo queria de ti, Lisboa, o ciclo de já ser, de novo, castanha e casaco e conforto. 

O que eu queria agora, Lisboa, não era nem o cheiro de rio e mar e água por todo lado, não era a rua enfeitada para festa antonina, não era o vaguear sem destino a qualquer hora, o café na esplanada, o pastel de nata morninho. Não era, não era, não era, Lisboa, a biblioteca de janelas imensas, as salas de aula que emanam passados clericais, os livros na mesma língua tão outra. Não era o alfarrabista da esquina. Não era a feira, não era o mercado nem a caixa grande com frutas que eu nunca pensei que ia gostar e seus vários tons de suculência. 

O que eu queria de ti, Lisboa, não era a estrutura de madeira no meio da sala, nem o quarto com vista pra roupas penduradas nas janelas dos vizinhos de vila, nem sair pra comprar a posta de peixe do almoço do dia e banhá-la em azeite perfumado. Não era o pequeno guarda-roupa azul, Lisboa, nem as sardinhas pregadas na porta ou o batente na entrada do banheiro. Não era a varinha mágica, o fogão encarapitado num degrau, o grande aquecedor a gás, a cortina de plástico na banheira, a televisão de tubo, o sofá-cama de cor cansada. Não era nem mesmo, Lisboa, o reconhecimento da intimidade ao entrar nesta casa tanto quando ela em mim. 

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O que eu queria de ti, Lisboa, não era o ônibus de degrau rebaixado, que anda devagar e para em cada esquina da ladeira para idosos de todas as idades poderem descobrir tuas estreitas belezas e degraus chamados calçada, nem o barulhinho do eléctrico na minha porta, a vendinha indiana, o sushi com maionese, o bar que é padaria e karaokê, a pastelaria antiga, o restaurante com chef badalado, o túnel de árvores, tudo a um estender de mão. Não queria parar no meio do tempo, Lisboa, e pescar palavras que vão grudando na língua, na ponta da caneta, no teclado, escumalha, sandes, lamechas, piroso, estaladiça, bifana, estufar, santola, malta, bibeirão e rir pro nada ao me deixar entranhar de ditos.

O que eu queria de ti não eram os festivais, os piqueniques, os sinos domingueiros, os artistas na rua, as ruas repletas. Nem era, Lisboa, o tempo que se faz lento no cemitério. Não era o perfumado das flores e sardinhas assadas. O que eu queria de ti não era a imperial solitária, a fumaça das castanhas, a refeição farta e caseira do Bitoque.  Não queria, Lisboa, agora, nem a açorda quente nem o camarão frio. Nem as natas, o bacalhau feito posta ou bolinho, nem seus queijos de texturas lúbricas. Não queria, Lisboa, agora, nem o risoto negro nem a lampréia ou os percebes, nenhum dos seus surpreendentes sabores, e também não queria o arroz de tomate, as pataniscas, as batatas ao murro, nem mesmo o melhor bolo de chocolate do mundo, esse novo tão parecido com o íntimo.

O que eu queria de ti, Lisboa, não era deslizar a mão nos azulejos frios das frentes das casas. Não era passear de eléctrico. Ou percorrer ruínas em castelo. O que eu queria de ti não era a criança perigosamente pegando carona no bonde, nem a velhinha teimosa em bengalas e ladeira. Não era, Lisboa, a rua apertada no Bairro Alto, em turistas e luas. O que eu queria de ti, Lisboa, não eram os museus semiabandonados, os restaurantes abarrotados e os cenários de cinema. Não era, Lisboa, as rebuscadas lamparinas, as varandinhas enfeitadas, as fachadas coloridas, nem os portas com palavras de ausência e viagem e destino e mar e além-mar, além-vida, além-tempo.

O que eu mais queria de ti, Lisboa, não era a travessia de barco, a outra margem falando mais de Rosas que de Pessoas. Nem as estações, mediadoras da beleza, seja em chegadas ou partidas. Não queria, Lisboa, tuas pedras antigas nem os embelezamentos de caminho turístico badalado. Não queria, Lisboa, o azul. Nem o alaranjado do sol que esquece de deitar. O que eu mais queria de ti, Lisboa, agora, não era o avermelhado das folhas nas calçadas, nem o lilás encarapitado nos galhos, nem o suave e branco frio que assovia no vão da janela. 

Não, Lisboa, o que eu mais queria de ti, o que anseio encontrar na memória de tuas esquinas, em cada paragem, esplanada, azulejo, fotografia, lembrança, história, o que eu mais queria de ti, agora, vorazmente, como quem se afoga, sem fôlego e sem tempo, o que eu queria, como quem sonha, arde, adoece, o que eu queria como quem já não suporta o vazio, o interdito, o banido, o que eu queria, em desespero, angústia, voragem, o que eu queria, mesmo que resquício, fragmento, vestígio, o que eu queria, Lisboa, era saber quem fui, quando em ti, habitava. 

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Saudade maior, texto ampliado.

Fato de Banho

Quando um filme começa, depois de um prólogo engraçadinho e esperto, com um homem acordando no susto, se arrastando pra fora da cama, e despejando um monte de antidepressivo na tigela de cereais do café da manhã, a chance de ele me pegar de jeito é muito grande. “Um banho de vida” (Le Grand Bain) é desses aí e a possibilidade se tornou realidade.

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Eu sempre fico encafifada como caraleos os franceses fazem isso, sendo o tal isso: pegar um mote e um clichê de filmes americanos – pessoas fracassadas/desajustadas se reúnem em uma equipe sem esperança de fazer algo de bom daquilo e esse processo muda suas vidas – e conseguem tornar essa maçaroca em um filme sensível, complexo, uma reflexão sobre o existir, com generosidade e doçura mas também abraçando as tristezas e as fraquezas todas. Porque, olha, nós seres humanos, temos tristezas e fraquezas a sair pelo ladrão. E nós, seres humanos pra lá dos quarenta, as temos, as tais tristezas e fraquezas, se não em mais quantidade, em um crescente de variedade. Eu me senti melancólica em vários momentos. É um filme gracinha mas não é um filme fácil. Nós não somos os nossos problemas, mas isso não significa que eles não nos modificam, determinam, alteram, empurram, puxam, influenciam como e o que fazemos.

Tem convite ao riso? Pois tem. Mas sem perder de vista tudo mais do existir. É mais um sentido de humor que o roteiro e a direção nos oferecem ao chegar bem perto de cada personagem do que uma gargalhada solta ou catártica. A gente ri, mas é da gente mesmo. Assistam aí a cena em que eles resolvem adquirir material esportivo e me digam se passaram incólumes.

Os atores são maravilhosos e, a despeito do tempo em cena, da quantidade de falas, do drama que lhes configura, todos conseguiram me comover. Eles me incitaram a uma generosidade comigo mesma. Somos todos meio patéticos. E, ainda assim, tão capazes de espanto – sentir e provocar. As cenas do moço que toma conta das piscinas, todas elas, que espetáculo de como construir um personagem com nuances e carisma. 

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Gostei demais de como o roteiro nos mergulha num real crível, as solidões, as dores, as dívidas, o desassossego, as impossibilidades (a cena da conversa do moço com a mãe, no asilo, que pancada) e aí nos dá a mão, nos conforta, faz um afago e sussurra: a gente sobrevive apesar e por ser gente. Porque em miudezas a gente respira. E tem umas pequenas e delicadas metáforas sobre manter a respiração suspensa, mergulhar, e, claro, até lembrando a Dory, um continue a nadar – o que justifica, em várias medidas, que este texto capenga esteja neste blog. 

Um momento pra reparar que eu não falei ainda da história do filme, né? Um grupo de homens 40+ de uma cidade pequena não só forma uma esquipe de nado sincronizado como resolve se inscrever no campeonato mundial. Eles são treinados por duas ex-atletas de perfil – e problemas – diferentes, mas unidas por um passado em comum (e incomum). Sim, parece mais do mesmo. Não, não é mais do mesmo. Ou não tanto que não valha a pena se emocionar um cadinho.

Outra coisa confortante é que com todo drama e tristeza e perda e frustração e impotência e desemprego e falta de jeito e corpos tão fora do padrão de beleza, eles existem em desejos, encontros, sexo, bebida e comida. O filme não foge da materialidade da vida. A edição funciona muito bem, permitindo que a gente vislumbre fragmentos dos cotidianos e vá entendendo a dinâmica, o encaixe da equipe e de como cada pessoa sustenta e é sustentado pelo processo do grupo. 

E o diretor é de uma coragem. Se a historinha parece seguir um padrão convencional, previsível até no desenlace, a forma escolhida para mostrar, as imagens construídas pela direção, são de outra matéria, de outra natureza. São criativas, inusitadas e em nenhum momento ele sequer flerta com a saída fácil de nos fazer rir dos personagens. Não, nós rimos e choramos e sentimos com eles. E isso é imenso. 

Se você leu até aqui e está pensando em Ou Tudo Ou Nada, está pensando certo. Como aquele, este é agridoce, engraçado, terno. E me fazem acreditar que é possível alguma beleza apesar do dia, da pandemia, do difícil que é a vida.

(Em Ou Tudo, Ou Nada, um momento que sintetiza tudo que eu quis dizer: é divertido, sensível, meio ridículo e muito, muito humano)

Tio Margarido e tia Nitinha

Tio Margarido não conheceu tia Nitinha. Nem poderia: Tio Margarido é personagem da novela “Chocolate com Pimenta”, magistralmente interpretado por Osmar Prado; já tia Nitinha era muito da vida real, solidez, pé no chão, redondezas, gargalhadas, expansão em abraços. Uma pena este estado das coisas, visto que tia Nitinha poderia ter sido de grande ajuda quanto ao problema que ora aflige tio Margarido: ele, viúvo, casou-se com a galante Dona Mocinha, uma senhora solteira embora já entrada em anos. Casaram-se por amor e com muita alegria, é certo: Dona Mocinha, porém, receia imensamente a noite de núpcias e seus – como dizer? – procedimentos. Apavora-se. Tranca a porta. Foge pela janela. Tio Margarido, cabeça afundada entre as mãos, se desespera. “Mas Dona Mocinha!”.

Caso tio Margarido tivesse tido a ventura de encontrar tia Nitinha, ela poderia lhe contar, como contou a mim, sua noite de núpcias. Ela também já casou com certa idade, para a época: mais de trinta anos. E nunca tinha conhecido homem em sentido bíblico, evidentemente – não haveria de, moça de família que era. Na noite de núpcias, tia Nitinha chorou de medo. Casara com aquele homem paraibano, do interior, que, supunha ela…. a bem da verdade, não sei ao certo o que ela supunha: sei que supôs bem errado, como me dizia, abrindo na risada. Ele, meu tio Dadu, vendo seu desamparo, pegou na sua mão e disse devagar: “Não vamos fazer nada que você não queira”. E assim foi. Foram indo a passos lentos, a gestos miúdos, se conhecendo, se desnudando aos poucos. Um pouco a cada dia. Nada que ela não quisesse. A noite de núpcias se alongou e acabou virando uma semana de núpcias. “No final da semana”, contava tia Nitinha, “eu já queria muito”. E aí aconteceu. E foi bom. E foi lindo. E foi como devia ser. Quem haveria de pensar, um paraibano de Areia, na primeira metade do século passado… mas foi assim que aconteceu. E tia Nitinha, tanto tempo e tantos filhos depois (foram cinco), me contava essa história com um brilho terno nos olhos. Poderia de fato, caso o encontrasse, sugerir esta tática ao tio Margarido, não é?

Uma semana feita de noites de núpcias, vejam que ideia bonita e delicada. Um pouquinho de cada vez. Quem haveria de imaginar.

Chocolate com Pimenta: Margarido e Dona Mocinha se casam no sítio - TV  História
Tio Margarido (Osmar Prado) e D. Mocinha (Denise Del Vecchio)



Aqui, assim: Jacaré

Jacaré

Eu não sei seu nome inteiro. Não sei sua cor preferida nem o nome da cidade em que você nasceu. Não sei a profissão da sua mãe, sua matéria favorita na escola, como se chamava seu primeiro cão. Nem sei o nome de suas irmãs. Não sei se você come chocolate. Não sei sua sobremesa predileta, o que você mais adora cozinhar, seu signo (ou sei? acho que não), sua maior qualidade, seu mais lamentável defeito. Não conheço seu critério para arrumação de livros, porque você mora num bairro de cento e um quarteirões, se você vai à praia (de maiô, toalha e canga, para torrar ao sol e pegar jacaré). Não sei se você crê em um Deus cruel e vingativo, ou num Deus bonzinho e gentil, ainda que de forma vaga e desorganizada ou se seu ateísmo é profundo, inabalável, como o meu. Sei coisas loucas como onde seu pai morreu e sobre a namorada do seu avô. Não sei de qual comida você mais gosta, que restaurantes frequenta (só sei de um, fui uma vez com a Lili e amei) e que chefe admira e cuja carreira segue. Conheço vagamente suas músicas, mas, de novo, não sei a mais querida. Não sei que gênero você abomina. Não sei que cantor dá nos seus nervos. Não sei se você gosta de futebol ou tem um time. Não sei se você quer ir morar no Canadá. Entendo que suas roupas não seguem um estilo que se possa definir, mas não sei se você tem uma peça preferida. Não sei se você dorme de pijama ou cueca e camiseta de 1993 da campanha a vereador de um primo distante (desconfio da segunda alternativa). Não sei a que séries anda assistindo, se sabe andar a cavalo, se bota manteiga no arroz, se comprou o último do Verissimo (tive de lutar pra encontrá-lo), em quais países viveu, se come miojo com requeijão, se roubou um grampeador da repartição, se tem planos para quatro ou cinco anos, se sabe os afluentes da margem direita do Amazona de cor. Acabo de me dar conta de que sequer sei se você é canhoto. Se tem vitrola e LPs, como é a sala da sua casa, se você sabe costurar ou se gosta de chocolate com uva-passa.

Não quero saber. Quero inventariar o que não sei.

Num relacionamento próximo com os pronomes

Sua risada quase teatral, suas roupas sem personalidade o que, por si só, já é uma espécie de declaração. Seu rumo, seu movimento, seu remo, sua trama, seu timão, seu equipamento, seus dentes, seus nãos, seus canhões de navarone, seu segredo, sua cidade, seu desenlace. Seu pó moído na hora. Seus gostos, seu gosto, sua adulta capacidade para fazer exatamente o que deseja. Seus livros. Seus goles, pedaladas, fotos, espaços, medos, pernas, países, santuários, armaduras, taças, sobrancelhas, orelhinhas, distâncias. Seu paradeiro desconhecido. Sua biografia, seu colarinho, seus sapatos, suas críticas. Seu sotaque mexicano. Seu gatilho. Sua previsão de chuva. Seu bife mal-passado. Seu gato. Sua camisa xadrez de branco e azul, seu sonho, seu lugar, sua absoluta certeza. Sua fragata. Seu querer. Sua mensagem. Sua repetição. Seu lado. Seu pau. Seus versos, guinadas, omeletes, xícaras de café, confissões delirantes, mudanças, nomes, dores. Suas admiráveis rasteiras. Suas fotos. Seu aniversário, seu signo, sua existência. Suas necessidades, suas colheradas. Seus pelos. Sua singela crueldade. Seu bairro com cento e um quarteirões. Seu interessante desaparecimento. Seu nenhum. Seu tampouco. Seu talvez. Seu museu, seu metrô, seu restaurante no centro, sua biblioteca. Seu atabaque. Sua vida, sua perda, sua memória, seu número de matrícula. Suas antenas, seu apenas. Seus mares do sul. Sua visão aérea. Sua carteira perdida no táxi. Sua calçada. Sua velocidade, sua decisão. Seus amigos, gestos, salva-vidas, sabonetes. Seu calor. Seu registro. Os nós de seus dedos. Sua cor. Suas garantias. Sua pedra da sorte, seus documentos, sua papelada, seus óculos. Seu reflexo. Seu convés, sua canção, seu chico buarque, seu poema, seu suspiro, sua hélice, sua âncora. Seus muitos antes. Seu eterno depois. Seus pés, seus lençóis, seus ouvidos, seus eitos a serem abertos. Sua camiseta preta, sua barba, sua magreza, seus olhos tristes, seu país triste. Sua respiração na escada. Seu céu. Sua voz de tenor hesitante. Seu ritmo. Seu violoncelo. Suas impressões digitais na cafeteira.

Assíncrono

Hoje eu fiz uma coragem. Enviei uma carta. Uma carta completa e absolutamente pessoal, sem nenhum mote material, sem nenhuma desculpa de calendário, sem nenhum assunto comercial. Uma carta particular. Enviar uma carta assim é um ato de fé, não lhes parece? Ou uma tentativa de dar um rabo de arraia no tempo.

Para enviar uma carta em que se escreveu: sinto sua falta, sem saber ao certo quando ela chegará ao destino ou quando será lida, é preciso audácia ou inconsequência. Sim, sinto sua falta, neste agora, quando escrevo, não há mentira nisso. Mas quando estiver entre as mãos do leitor, a frase se apresentará como atualidade. É preciso uma confiança na constância dos sentimentos para garantir, por escrito e envelope e selo, que a ausência ainda será saudade.

Uma carta não é muito diferente de uma garrafinha jogada ao mar, náufraga que sou. Desenho com letra caprichada seu nome no envelope, como se o apuro garantisse a identidade de quem recolhe a mensagem. Que sei eu de quem você será, nesse momento outro em que chegarei em palavra? Ainda assim, insisto, o que mais pode fazer um corpo no exílio dos abraços? Como uma forma de burlar a geografia, enviar uma carta é uma tentativa de estar em tuas mãos.

Enviar uma carta é dobrar o tempo para fazer o eu que sou encontrar o eu que você será, apostando que o eu que serei ainda se emocionará com o você que é.

Comprei um livro, uma vez, por causa do título: “Porque as mulheres escrevem mais cartas do que enviam?”. É revelador que eu nunca consiga escrever esse título sem colocar um “de amor” ali, entre as cartas e o envio. Aí me lembro de conferir e apago. Escrever é uma tentativa de aplacar a solidão de ser. Eu sei, nós sabemos. Decidir-se a remeter o que escreveu é uma tentativa além, de ser aceito no ridículo de existir. Todas as cartas de amor são ridículas e todas as cartas são cartas de amor – ou, pelo menos, as minhas são.

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Aqui, assim

Eu quase falei de você. Quase, quase. Quase falei de você. Quase descrevi seus olhos estranhos, sua voz ao telefone, as canções e a sensação que eu tinha de pertencer, de fazer parte, de dividir umas historinhas, de existir. Quase falei de você porque ela é minha amiga e escreve tão lindo e eu estou a ler coisas e mais coisas que ela produziu sobre amores perdidos e dores que desaguam noutras e cigarros que são fumados na varanda. Quase coloquei a mão sobre o ombro dela e disse “Sabe, L., vou falar sobre ele para você. Vá pegar um vinho”.

Quase falei de você por duas garrafas, para depois ir gritar seu nome da sacada, assustando a minha amiga também bêbada, mas de tão bom coração. Quase falei de você, quase soube de novo pronunciar seu nome, suas consoantes – esses fonemas que enfrentam obstáculos durante sua vertiginosa viagem pelo aparelho fonador – constritivas, vibrantes, alveolares e sonoras. Olha que eu quase falei do seu aparelho fonador. Ia dizer a ela que não sei onde você nasceu, mas sei que não foi no seu bairro de 101 quarteirões. Ia dizer a ela que você bebe cerveja, água da torneira, vinho. Que você entende de grãos moídos, cinema estranho, músicas antigas. Ia falar da cor da sua pele, das fotos velhas, da equipe, das cidades. Das suas escolhas. Quase falei de você. Quase, quase falei de você, mas fui dormir, sem sonhos, sem sobressaltos, só calor e lençóis bonitos e acordei num novo dia, numa outra vida, num instante de brisa e leite gelado. Eu quase mesmo falei de você.

[ilustra cometida aqui, sem condições de pesquisa hoje]

Dedicatórias

“cada livro, cada volume que vês, tem alma.
 A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram
e viveram e sonharam com ele.
Cada vez que um livro muda de mãos,
cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas,
o seu espírito cresce e torna-se forte”
(Carlos Ruiz Zafon)

Sim, eu dobro a pontinha das páginas dos livros. Colo post-its com recadinhos. Pinto de lápis de cor ou mesmo sublinho, com lápis preto, trechos favoritos. Desenho estrelinhas, corações, setas e indignados pontos de exclamação e/ou interrogação ao lado de algum parágrafo que me marcou. E, atenção, eu escrevo sim, nos meus livros. Palavras soltas ou reflexões que seguem por páginas. Sou capaz de gestos abomináveis, como vocês podem ver. Nunca disse que era uma pessoa boa. 

Mas tem uma coisa que gosto de fazer e que jamais permito que entre na lista de ações questionáveis: escrever dedicatórias. Uma dedicatória é uma ternura. Um afago que se faz no livro para que, chegando às mãos e olhos de quem o receberá, daí salte, ligeiro, e deslize no rosto querido. Um carinho tão perene que quando esbarramos – em um sebo, em uma prateleira alheia, em uma biblioteca que seja – com uma dedicatória para e de pessoas que nem mesmo sabemos quem são, ainda assim nos atravessa o sentimento registrado (ou me atravessa – e é o que importa no texto de hoje).  

Os livros trazem histórias que ultrapassam o que eles contam, página a página. Eles têm seu passado, sua ascendência, líquido primordial de onde vieram, antes de serem tinta e papel – e código de barra, passe no caixa, por favor; e tem, também, seu caminho próprio, ao se tornarem únicos, como a rosa do Pequeno Príncipe. É o tempo que dedicas, etc. E a dedicatórias que escreves. Um livro com dedicatória já não é mais um exemplar igual a tantos outros, foi escolhido, desejado, oferecido e lido em circunstâncias específicas, emprestado, guardado, machucado, borrado, esquecido, apresenta marca de dedos e lágrimas, uma mancha do fundo da xícara de café ou uns respingos do vinho. A dedicatória é um capítulo à parte na história de cada livro, fala de momentos e sentimentos que se desejou poder manter… porque aquele livro, naquele tempo, naquela relação? Em dedicatórias de gentes desconhecidas é possível re-inventar – e, com isso, um pouco treinar o próprio sentir – tantos percursos e afetos. Fico imaginando quem e como escreveu aquela mensagem. O que doía, o que amava, o que ardia, o que fazia e esperava. Uma dedicatória é vestígio, indício que permanece enquanto existe o livro na vida de quem o recebeu e além, quando passeia em heranças, doações, sebos, feirinhas, de mão em mão e vai se repetindo o gesto que salta, carinhoso, de pele em pele. Nesse trânsito, o livro e a dedicatória vão concentrando outros e novos sentir (es?). E sentimos, todos, de nossa forma singular, o que foi íntimo, depois público e de novo único. Receber um livro com uma dedicatória que continua, brinca, joga, reinventa uma dedicatória que já lá estava é das coisas mais ternas. Acho eu.   

Quando escrevo uma dedicatória, a ponta da caneta é pele, lábio, língua. Corpo se fazendo letra para se quedar carícia. O deslizar (e algum atrito) no papel para dizer. Para dizer-me. O quanto gosto, sinto falta, o que queria, o que vejo, o tanto que pensei. Para contar das vontades de futuro ou cutucar um cantinho do passado. Compartilhar riso, sombra, esperança, descoberta. Uma dedicatória é a vontade de ficar um pouco mais. De estender um tantinho o que já se disse dando o livro. “De ficar perto, se longe e mais perto, se perto”. Quando escrevo uma dedicatória tento dizer o que não pode ser dito ou, pelo menos, criar uma memória, um cenário, uma moldura para o “isto”. Não pode ser dito, mas a dedicatória guarda o eco.

A infinitena vem me roubando parte desta experiência. Ainda tenho dado livros. Tenho-os recebido. Mas para reduzir saídas, correios, interações, etc, no lugar de comprar, trazer pra casa, acariciar, marcar e só então enviar, pulo etapas e ele (livro) já sai do conglomerado-capitalista-destruidor-de-livrarias direto pra portinha das pessoas. Tento amenizar mandando email, mensagem na caixinha, um áudio, mas nada disso tem a textura, sabor, cheiro e afeto de uma dedicatória ali, na folha de rosto. 

Ontem vi o documentário do Paulinho da Viola. Ele diz (ou algo assim, me perdoem, sou Dory demais): eu não vivo no passado, o passado vive em mim. E, digo eu, vivemos, Paulinho, passado, presente, e também essa que sou, nas dedicatórias que inscrevemos.

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(Foi escrito pra mim? não. Li como se fosse? claro)
(um tumblr tão lindo, com várias dedicatórias: eu te dedico)